eram trinta e três degraus: duas linhas de água escura escorriam pelos cantos; no topo, a paulista; nas minhas costas, o trabalho puxava a mochila até estalar as costelas.
o vento frio anunciava a verdade como se fosse um beliscão indelicado no meio do sonho: estava em são paulo. o sotaque forçava os ouvidos, o incômodo trazia a saudade, a multidão me enchia de vazio. as regras, porém, eram as mesmas de antes. era tudo tão simples e claro que parecia difícil compreendê-lo - como se fosse uma palavra fácil que não conseguia soletrar: banana.
onde fica o dentista? qual o melhor dia para comer uma feijoada? como se faz para ir ao encontro de deus? quem irá me carregar no final da madrugada? por que não lembro da infância? quando poderei sorrir nas ruas?
senti falta de casa pela primeira vez em dez anos, como se tivesse demorado todo o tempo para perceber as mudanças. ao atingir o topo da escada, com o mundo girando a toda velocidade, não era mais o garoto de antes. o vestibular acabara; o medo era real.
ao atingir o topo, o barulho do trânsito calava os pensamentos. a avenida era plana e devia seguir em frente, passo a passo, cara a tapa. tão simples como sorrir diante do espelho, vestir casaco e soletrar: b-a-n-a-n-a...