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::Terça-feira, Agosto 19, 2008 ::

- transparência -

ana usava um vestido colorido perfeito para vender mate na praia. era domingo. chinelinho de dedo e cabelos agitados como se fossem mar.

as cores do vestido a deixavam aparecer, traçavam detalhes do seu corpo que a pele transparente e tímida duvidava ainda em querer desenhar. gritava os preços da bebida como se cantasse uma linda poesia. ou era caymmi.

não recebia cantadas, nem recebia pensão. trabalhava domingo a domingo, como se todo dia fosse o mesmo romance recheado de desassossego e solidão. passava pela areia como um cândido grão a deslizar na rotina do vento.

e era linda mesmo assim.


Caronte, a escuridão 13:18 [+]
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- correspondência -

mal dormia e o sangue já começava a pingar nos seus sonhos. k. sorria amarrado nas tripas do cafajeste que acabara de esquartejar, com cara de dever cumprido e salvador da humanidade. deus estava dentro dele.

suava a noite inteira enquanto sua mente trabalhava para construir as mais cruéis vinganças. ao fim, sempre matava o inimigo com descarga de ódio a esticar seus músculos e o abandonava à própria sorte, despedaçado - porque o desprezo, assim, era a maior das traições.


Caronte, a escuridão 12:51 [+]
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::Terça-feira, Agosto 12, 2008 ::
- simplicidade -

k. se fechou em um quarto três por três e acreditou que dali conseguiria entender o mundo. ouvia os pássaros e suava com o ventilador velho a soprar um vento quente em sua camisa molhada.

pedia comida pela internet, gastando a poupança que acumulara enquanto ainda fazia planos. banhava-se a cada três dias. a barba já estava a esconder o rosto que um dia admirou e, naqueles instantes, apenas encarava no espelho para sentir ódio de si mesmo.

k. não entendia o mundo, mas, trancado, achava que iria entender. não atendia o telefone, nem respondia e-mails para não se deixar influenciar pela opinião dos outros - 'não serei mais nunca uma maria-vai-com-as-outras'. o canto do passarinho já o incomodava... mesma música todas as tardes.

o sol brilhava no fim do inverno e a poeira escurecia sua vista - pesava sua cabeça o pus acumulado pela alergia. 'a vida é tão simples que não quero mais vivê-la', k. escreveu com pouca convicção na parede do quarto antes de dormir. sonhava pesadelos.

o barulho das ruas se repetia naqueles três meses sem sair de casa, sem que nenhuma solução o animasse. o mundo simplesmente continuava enquanto a vida de k. desistia de ser e se acabava.


Caronte, a escuridão 14:58 [+]
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::Sábado, Agosto 02, 2008 ::
- c.a. -

era apenas uma célula que decidiu se multiplicar, como um ditador que buscasse impor seus pensamentos, suas convicções, para dominar o mundo - e logo formou uma bolha.

em poucos instantes, tínhamos uma onda a balançar o corpo e desesperar todos aqueles que nele se sustentavam.

Caronte, a escuridão 00:35 [+]
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