ana usava um vestido colorido perfeito para vender mate na praia. era domingo. chinelinho de dedo e cabelos agitados como se fossem mar.
as cores do vestido a deixavam aparecer, traçavam detalhes do seu corpo que a pele transparente e tímida duvidava ainda em querer desenhar. gritava os preços da bebida como se cantasse uma linda poesia. ou era caymmi.
não recebia cantadas, nem recebia pensão. trabalhava domingo a domingo, como se todo dia fosse o mesmo romance recheado de desassossego e solidão. passava pela areia como um cândido grão a deslizar na rotina do vento.
mal dormia e o sangue já começava a pingar nos seus sonhos. k. sorria amarrado nas tripas do cafajeste que acabara de esquartejar, com cara de dever cumprido e salvador da humanidade. deus estava dentro dele.
suava a noite inteira enquanto sua mente trabalhava para construir as mais cruéis vinganças. ao fim, sempre matava o inimigo com descarga de ódio a esticar seus músculos e o abandonava à própria sorte, despedaçado - porque o desprezo, assim, era a maior das traições.
k. se fechou em um quarto três por três e acreditou que dali conseguiria entender o mundo. ouvia os pássaros e suava com o ventilador velho a soprar um vento quente em sua camisa molhada.
pedia comida pela internet, gastando a poupança que acumulara enquanto ainda fazia planos. banhava-se a cada três dias. a barba já estava a esconder o rosto que um dia admirou e, naqueles instantes, apenas encarava no espelho para sentir ódio de si mesmo.
k. não entendia o mundo, mas, trancado, achava que iria entender. não atendia o telefone, nem respondia e-mails para não se deixar influenciar pela opinião dos outros - 'não serei mais nunca uma maria-vai-com-as-outras'. o canto do passarinho já o incomodava... mesma música todas as tardes.
o sol brilhava no fim do inverno e a poeira escurecia sua vista - pesava sua cabeça o pus acumulado pela alergia. 'a vida é tão simples que não quero mais vivê-la', k. escreveu com pouca convicção na parede do quarto antes de dormir. sonhava pesadelos.
o barulho das ruas se repetia naqueles três meses sem sair de casa, sem que nenhuma solução o animasse. o mundo simplesmente continuava enquanto a vida de k. desistia de ser e se acabava.
era apenas uma célula que decidiu se multiplicar, como um ditador que buscasse impor seus pensamentos, suas convicções, para dominar o mundo - e logo formou uma bolha.
em poucos instantes, tínhamos uma onda a balançar o corpo e desesperar todos aqueles que nele se sustentavam.