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::Segunda-feira, Julho 28, 2008 ::

- espiral -

a vida é uma só. ler posteriormente o que se escreveu sobre experiências ou construções mentais é voltar ao passado para reescrevê-lo consciente dos resultados que serão produzidos, com a única correção de que, não se podendo consertar o passado, planeja-se o futuro para realizar os acertos que a vivência apresentou.

escrever este blog sempre foi, para mim, a melhor forma de arquivar personagens, cenários, passagens em um almoxarifado vivo. e a experiência se mostrou correta tantas vezes. valeria a pena tê-lo construído desde o primeiro comentário que recebi por e-mail, de um português barbudo, dono de um papagaio e motorista de bugre em natal.

entretanto, apenas hoje percebi com clareza a função filosófica deste humilde canto virtual. li o primeiro texto que escrevi em três de fevereiro de dois mil e três e o achei atual, como se àquele dia minha vida retornasse, para descobrir, no ensinamento, novos conhecimentos, novas compreensões. digo mais a mim mesmo (que me conheço como ninguém), toda a primeira página dos textos mais antigos está a me revelar segredos sobre o futuro.

lendo mais um pouco, sinto-me feliz por ter sido um cara bacana naquela época. sinto-me feliz por encontrar em mim mesmo o amigo íntimo que preciso para revelar os detalhes da angústia impronunciável cravada no peito. eu estava precisando de mim mesmo, porque vivi, longos tempos, na mente de outras pessoas que queria conquistar.


Caronte, a escuridão 04:12 [+]
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- blockbuster -

a atriz italiana de filmes complexos assistia a tv no canto da sala, comendo pipoca e ouvindo as explosões: adorava super-produções-holliwoodianas-de-alto-orçamento.

não confundia a personagem especial que interpretava com a pessoa comum que carregava na vida real.


Caronte, a escuridão 02:01 [+]
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lado a

'caiu na roda, ou acorda ou vai rodar' - céu/beto villares

madalena era uma mulher comum e acordou com ressaca nos olhos. os beiços sujos do moço que a encurralou, na manhã anterior, entre a barraca de côco e a calçada alta da praia do arpoador ainda estavam a tremer, com a confissão se segurando para não ser dita.

ao lado, via k. mas não conseguia entendê-lo perdido profundamente no sono, 'como podia estar tranquilo depois do que aconteceu?'. madalena jamais assumiria a culpa sozinha e, agora, a única dúvida era se deveria acordá-lo para dizer ou esperar que ele procurasse a dureza do seu dia naturalmente.

como pensou alto, o rapaz despertou para lhe dizer bom dia, como se, realmente, não quisesse perceber o problema - mesmo que ela contasse com todas as letras; 'bom dia, meu bem', disse ele tentando mira-la nos olhos. madalena contou tudo em um cuspe, sem contestar se era bom, se faria bem - e chorou para preencher a vista de água e esfregar a vergonha que lhe restara.

por dentro, estava feliz por resolver a angústia que as palavras, presas em sua mente, provocavam. e nada mais importava que fazer prevalecer, depois disso, suas demais conclusões sobre o tema. madalena ensinaria toda a filosofia necessária para cortar o bolo de culpa que estava a servir de café-da-manhã - k. deveria agradecer por estar sendo servido na cama, como um rei.

lado b

'cada um que passa em nossa vida passa sozinho, pois cada pessoa é única, e nenhuma substitui outra. cada um que passa em nossa vida passa sozinho, mas não vai só, nem nos deixa sós. leva um pouco de nós mesmos, deixa um pouco de si mesmo. há os que levam muito; mas não há os que não levam nada. há os que deixam muito; mas não há os que não deixam nada. esta é a maior responsabilidade de nossa vida e a prova evidente que nada é ao acaso' - antoine de saint-exupery

k. dormia e, naquela noite, sonhava com a vida. ana estava encostada numa grade e eles se olharam - era a descoberta do amor. k. dormia e sonhava com a vida que gostaria de ter; roncava e sorria de boca aberta para engolir moscas. e ana largou a grade que prendiam-nos na solidão para ir com seu homem.

zzz

não era a primeira vez que k. dormia, nem a única ou última em que sonhava. a cada noite aprendia algo com os sonhos que imaginava reais - nunca achava ana, mas acordava com joana, mariana, liliana: falsas anas que o ensinavam a encontrá-la.

nenhuma era fiel aos seus pedidos, pois, para realizá-los, k. exigia que as moças abdicassem dos prazeres mundanos, que enfrentassem o deleite dos sentidos. tinha uma fixação por fidelidade e aos princípios maiores de qualquer relação - e andava só, sem amigos ou mulheres para sempre: o ser humano comum nasceu para contestar as leis, inclusive as que jamais deveriam ser rompidas.

k. não sabia se era muito rígido com as pessoas, se era poético demais ao avaliar seres incompletos, se era burro ou o quê. mas tinha certeza que, se era para sonhar, ia sonhar o melhor e, se era para viver, que ia continuar a buscar o sonho mais perfeito que pudesse imaginar. as dificuldades de ana que ele enfrentava ou as que para ela criava, eram oportunidades de se amarem no dia seguinte - bastava que os princípios fossem seguidos com fidelidade.

o sono acabou e logo k. descobriu que era o fim de outro sonho. ana estava em pé ao seu lado, sem grade nenhuma para impedi-la de agredi-lo; se apresentou enquanto ele esfregava a mão para mirar fixamente os olhos de ressaca, sem entender por que não via os puros-amorosos-olhos-de-ana: 'meu nome é madalena', disse lhe dando uma fatia escura de bolo fedorento.


Caronte, a escuridão 01:37 [+]
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::Domingo, Julho 27, 2008 ::
- fortaleza -

o sol incendiava o rosto de k. esticado com seu corpo nas areias de copacabana. há seis anos ele não ia jogar vôlei com os amigos ali e, como os amigos não mais existiam, sobrava a solidão para esquentá-lo.

os lábios estavam ressecados e com gosto de sal trazido pela maresia. na mente, a saudade do tempo que não viveu era resultado do sol, do sal e da solidão - 'por que segui por este caminho?'.

olhou para o relógio, 'tenho vinte e oito anos'. k. não sabia se sobraria tempo para gastar uma semana inteira antes de buscar um novo rumo ou se devia caminhar em direção à felicidade imediatamente, com areia no short e tudo. enquanto isso, contestava suas convicções para superar-se.


Caronte, a escuridão 09:53 [+]
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::Quinta-feira, Julho 24, 2008 ::
- batom -

a cadeira fez um som estridente ao se arrastar no piso e ana se sentou sem pedir licença, com o dedo indicador direito a requerer imediatamente um chope. sabia todos os códigos daquele bar.

seu rosto cansado apontava que sabia os segredos de muitos outros cantos. ana não tinha rugas, o desgaste que a vida lhe causava não se percebia em traços definitivos - era a falta de brilho que denunciava.

tinha vinte e quatro anos quando sentou na mesa; um nariz árabe, boca vermelha de um batom que permanecia grudado em seus lábios, olhos experientes de quem tomava dos erros apenas o coice - sem a lição.

não era bonita, nem feia. apenas usada, como uma matrona na porta do cabaré, olhando os moços a chegar encabulados para visitar suas meninas - e já ciente do que sofreriam para buscar na vida o prazer.


Caronte, a escuridão 12:40 [+]
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