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::Sexta-feira, Junho 27, 2008 ::

- fobia -

bateu a porta do consultório com revolta. k. sabia que não tinha medo das pessoas - era simplesmente nojo, da modalidade mais asquerosa que um homem era capaz de sentir.

no dia anterior à consulta, por exemplo, escultava atentamente o velho lhe dizer que ia dar um novo livro do seu escritor preferido. entretanto, tinha vontade de atirar o copo de uísque na cabeça enrugada do contente senhor. pois, como podia uma pessoa tão idosa se animar daquele jeito quase às dez horas da noite?

repulsa. k. enxergava os defeitos de todos como se os outros usassem vestes transparentes e ainda, ressaltassem as rugas perebentas que carregavam no umbigo. aquele médico que acabara de lhe dar o veredicto, vejam só, às escondidas da esposa mantinha casos com enfermeiros do plantão de domingo.

tão deficientes eram os homens a seus olhos que a ele causava ânsia de vômito quando algum pretendia lhe fazer um bem. 'por que sorrir? por que se divertir? vamos falar sobre os defeitos e chorar nossos erros'. k. tinha nojo do mundo, do ser humano. não demoraria a sentir asco por si mesmo.


Caronte, a escuridão 12:22 [+]
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- mundo cão -

k. tinha vergonha quando se sentava ao lado de ana, porque ela conhecia todo o mundo em sua volta e ele apenas se sentia seguro em seus olhos.

os músculos quedavam-se tímidos e fechavam os braços a apertar o suvaco, como se a fraqueza estivesse a exalar como mau-cheiro - que espremido, assim, não sairia.

ana havia acabado de chegar de um albergue holandês. e sem querer machucá-lo, contou no celular que foi consumida por um coreano de braços fortes e tatuados e que consumiu tanta cultura que, de conhecimento, sentia-se plena e de cabelos em pé.

k. se perdeu nos cabelos da moça, como se naquele emaranhado pudesse organizar seus pensamentos e esquecer a fixação que sentia pelo nariz arrebitado. mas, como ana voltara com cabelos curtos, a tentativa foi frustrada pelo tempo que seria necessário para o rapaz se encontrar, tomar rumo, ser homem.

ao menos ela estava ali por pena, ou mesmo por acreditar que um dia k. voltaria a ser o homem ágil e sagaz que a encantara. comeram rapidamente uma carne seca desfiada e sem gosto antes de deitarem-se de estômago vazio na cama desarrumada do quarto de dormir.

com os braços espremidos em seu tronco, k. nem sentiu ana direito. sentiu vergonha muita - dessa vez, por ela...


Caronte, a escuridão 12:12 [+]
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::Quinta-feira, Junho 12, 2008 ::
- quase um mês -

...

Caronte, a escuridão 16:32 [+]
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